quinta-feira, 5 de agosto de 2010

EBR - LIÇÃO Nº 6: NAÇÕES E LÍNGUAS - COMENTÁRIOS

INTRODUÇÃO

O primeiro enunciado da Bíblia é uma citação vocal: Deus disse: “Faça-se a luz!” (Gênesis 1.3). A ação aconteceu pela comunicação oral. “A habilidade de falar é tão importante que se torna difícil conceber a vida sem linguagem”.

O estudo da linguagem verbal humana chama-se linguística. Apenas o homem foi criado com aparelho fonador, capaz de articular palavras numa sequência lógica. Dá-se o nome de aparelho fonador ao conjunto de órgãos responsáveis pela formação dos fonemas. É constituído basicamente das seguintes partes:

a) Pulmões, os brônquios e a traquéia - orgãos respiratórios que fornecem a corrente de ar, matéria prima da fonação
b) Laringe, onde se localizam as cordas vocais, que produzem a energia sonora utilizada na fala
c) Cavidades supralaríngeas (faringe, boca e fossas nasais), que funcionam como caixas de ressonância, sendo que a cavidade bucal pode variar profundamente de forma e de volume, graças aos movimentos dos orgãos ativos, sobretudo da língua, que, de tão importante na fonação, se tornou sinônimo de idioma.

Hoje em dia, uma verdade indiscutível na ciência lingüística é a de que todas as línguas mudam com o passar do tempo. Elas vão evoluindo, adaptando-se aos usos inovadores da comunidade falante, ao longo do tempo. De fato, não há língua que permaneça uniforme. Todas as línguas mudam.

I. A ORDEM DIVINA

O capítulo anterior de Gênesis termina com uma seqüência fixa de tempos e estações, com a existência garantida enquanto durar o mundo. Agora, Deus abençoa o homem de modo que seu trabalho prospere dentro dos tempos e estações fixados. Primeiro vem o que Deus dá ao homem (v. 1-3), depois o que Deus pede ao homem (v. 4-6).

Quando Deus "abençoa" Ele não apenas deseja coisas boas, mas Ele faz com que estas aconteçam. Esta bênção dada por Deus, Elohim, envolve a sua relação com o mundo na qualidade de Governador e Sustentador, sendo transmitida ao pai e aos seus filhos, na medida em que eles são os cabeças representativos da família humana. Claro, as mulheres participam desta bênção. A substância da bênção é a palavra: "Sejam frutíferos, multipliquem e encham a terra." Em parte, como a bênção na criação original (Gênesis 1:28), envolve um dom, ou seja, o dom da fecundidade, o qual homem não pode dar a si mesmo. O segundo termo, "Multiplicar", envolve tanto um dom, ou seja, a capacidade de multiplicação, como um dever.

O homem é obrigado a propagar sua espécie, juntamente com o mandamento divino para "encher a terra". A humanidade não deveria se concentrar em alguns poucos lugares, mas espalhar-se para que a Terra não tivesse áreas desocupadas e sem cultivo. Observe que após o Dilúvio, à medida em que a humanidade avança, não inclui a ordem original para "subjugar" a terra. Possivelmente, após a queda, o pecado incapacitou o homem para dominar o mundo de forma adequada. De fato, todas as tentativas de dominação do mundo após a queda resultaram (e resultam) na degradação e destruição do mesmo.

Deus deu a Terra aos filhos dos homens, para possessão e habitação (Sl 115.16). Com a benção de Deus, as gerações se sucederiam de forma constante, uma após outra, fazendo com que a Terra fosse continuamente habitada. Embora a morte ainda devesse reinar, a terra nunca deveria ser novamente desabitada como antes, mas haveria repovoação, Atos 17:24-26.2.

II. A REBELIÃO HUMANA

O final do capítulo anterior de Gênesis nos diz que pelos filhos de Noé, ou entre os filhos de Noé, as nações foram divididas na Terra após o dilúvio, ou seja, foram separados em diversas tribos ou colônias. Assim foi a questão bem resolvida, cem anos depois do dilúvio, por ocasião do nascimento de Pelegue (Gn 10.25). No entanto, tal condição lhes pareceu desfavorável, de forma que planejaram habitar todos num mesmo lugar. Havia vantagens neste projeto:

a) Eram todos de uma língua (v.1). Se existiam diferentes línguas antes do dilúvio, ou somente a de Noé, que provavelmente era a mesa falada por Adão, nada pode ser concluído; o fato é que a língua foi preservada do dilúvio, e continuou depois dele. Agora, como todos eles se entendiam, deveriam ser mais propensos a amar uns aos outros, e mais capazes de ajudar uns aos outros, e menos inclinados a separarem-se uns dos outros.

b) Encontraram um lugar muito conveniente para se instalarem (v. 2), uma planície na terra de Sinear, uma planície ampla, capaz de acomodar todos eles, uma planície fértil. Como todos falavam o mesmo idioma, com a inteligência e os recursos naturais que tinham e o desejo de se engrandecerem, o seu progresso seria rápido no caminho da auto-suficiência e conforto material, fazendo tudo o que desejassem - e o seu coração continuava mau, rejeitando o seu Criador.

No caso em estudo, vemos que até projetos malignos podem ser viabilizados quando existe unidade. Quão unidos não deveriam ser então aqueles que buscam causas nobres, aqueles que trabalham pelo reino de Deus?

Babel é um nome que veio a significar confusão, e ilustra a rebeldia da humanidade contra Deus: havendo sido instruídos a encher a terra (9:1), cerca de um século após o dilúvio os descendentes de Noé partiram para o ocidente, instalaram-se em uma planície entre os rios Tigre e Eufrates e decidiram construir uma cidade e uma torre até os céus, para tornarem-se célebres e evitar que fossem espalhados por toda a terra. Segundo Filo, "eles gravaram seus nomes nos tijolos - in perpetuam rei memoriam, como memorial perpétuo".

Ela não só externava a atitude arrogante, rebelde, da humanidade contra Deus, mas também era um símbolo religioso, como os zigurates que a copiaram, onde o povo adorava o sol, a lua, e as estrelas (Ninrode, bisneto de Noé, e sua esposa Semiramis vieram a ser endeusados e representados pelo sol e a lua na religião babilônica e outras que dela derivaram; Gn 10.8-10). Babel foi o modelo de todos os zigurates - o último degrau de um zigurate ( geralmente havia 7 ) , era considerado a "entrada do céu".

O que motivou-os a construírem a cidade? o sentimento na construção de Babel poderia ter sido motivado pelo temor de um novo dilúvio. Apesar de Deus ter prometido que não destruiria a terra novamente deste modo, eles preferiram se assegurar de tal impossibilidade (demonstrando desconfiança e falta de fé para com Deus, além de presunção e arrogância) construindo uma edificação sólida e duradoura com seus próprios esforços. Interessante ressaltar que na construção humana e pecaminosa, o melhor material usado é o betume; já na edificação divina, o material é infinitamente superior (Ap 21.19-21).

Veja o que Henry M. Morris disse sobre essa forma de espiritualidade de Babel, que é, não se esqueçam disso, o protótipo de toda idolatria e astrologia e outras “ias” mais.

Este projeto foi inicialmente apresentado ao povo sob o disfarce da verdadeira espiritualidade. A torre em sua grandiosidade sublime simbolizaria o poder e majestade do “verdadeiro Deus” do céu. Um grande templo em seu vértice proporcionaria um centro e um altar aonde os homens poderiam oferecer os seus sacrifícios e adorar a Deus. Os signos do zodíaco estariam estampados no teto ornado e também nas paredes do templo, significando a grande história da criação e da redenção, como havia sido dita pelos patriarcas antediluvianos... De tal início, logo surgiu todo o complexo da religião "humana", um panteísmo evolucionista, promulgado através de um sistema de astrologia e politeísmo idólatra, habilitados pelo espiritismo ocultista e o demonismo.

III. A AÇÃO DIVINA

Eis aqui uma expressão à maneira dos homens: "Desceu Jeová para ver a cidade". Deus é justo e bom em todo o que faz contra o pecado e os pecadores e não condena a ninguém sem ouvi-lo. Deus permitiu que eles chegassem a certo ponto para que as obras de suas mãos, das quais se prometiam honra perdurável para si mesmos, resultassem uma censura eterna

Deus não contempla passivamente o pecado humano, mas atua com justiça na história humana, no momento que lhe apraz.

Observe a sabedoria e misericórdia de Deus nos métodos usados para derrotar este empreendimento. E a misericórdia de Deus ao não fazer o castigo igual à ofensa; pois Ele não nos trata conforme aos nossos pecados. A sabedoria de Deus, ao estabelecer uma forma segura de deter seus procedimentos. Se não podiam entender-se uns aos outros, não poderiam ajudar-se um ao outro; isto os afastaria da edificação. Deus tem diversos métodos, e eficazes, para frustrar e derrotar os projetos de homens orgulhosos que se colocam em Sua contra e, em particular, os divide entre eles mesmos.

Os construtores se separaram conforme as suas famílias e as línguas que falavam, aos países e lugares designados para eles. Os filhos dos homens nunca tornaram a se ajuntar, nem jamais se reunirão novamente, até o grande dia em que o Filho do homem se sentar no trono de sua glória e todas as nações se reúnam diante dEle.

Para que o projeto fosse encerrado, Deus confundiu as línguas dos que trabalhavam na torre. Assim, um não entendia o que o outro dizia, e a conseqüência foi a separação. Por isso, Babel se tornou sinônimo de confusão. Não é assim que estão muitas famílias, muitas empresas, muitos grupos sociais? Estão tentando viver sem Deus, e o que conseguem? Confusão. Todos falam, mas ninguém compreende. E muitas vezes o resultado é o caos, a falência, a separação. Precisamos de Deus como arquiteto das nossas vidas. Deixemos que o seu projeto prevaleça, pois só assim alcançaremos o céu.

IV. A COMUNICAÇÃO RESTAURADA

No Pentecostes, restabelece-se a unidade desfeita com Babel. Trata-se, porém, da unidade na diferença e da diferença na unidade. A arrogância imperial de Babel anula a diferença. O amor do Pentecostes une diferenças, sem uniformizar. Em Babel, Deus desce para confundir, em Pentecostes, o Espírito desce para unificar línguas e propósitos. Se aquele povo rebelde, por falar a mesma língua e ter o mesmo propósito, seria capaz de qualquer proeza, imagina um povo reunido e capacitado pelo Espírito Santo!

Com o Pentecostes,  Deus capacita o homem para cumprir Seu propósito: "Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra" (At 1.8). Em Gênesis, Deus ordena ao homem que povoe toda a Terra; aqui, Deus envia seus discípulos, devidamente capacitados, aos homens que habitam até os confins da Terra como Suas testemunhas. Ao final, o plano divino será concretizado: "Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas suas mãos" (Ap 7.9). 

Deus não é adepto da monotonia, como nos revela a Criação (enormidade de diferentes plantas, peixes, aves, répteis e mamíferos, bem como de homens e mulheres, de astros e galáxias). Não, o Senhor ama a variedade! Até a Sua Graça para com o homem é multiforme (I Pe 4.10)!

CONCLUSÃO:

Eis aqui em Gênesis 11:1-9 a raiz de todo mal individual, social e familiar. A história, da perspectiva bíblica, é sempre a mesma...

- A pessoa se afasta de Deus (duvida de sua bondade)
- Ela abandona a Palavra de Deus (não se submete a ela)
- Ela cria para si os seus próprios planos (nome), aborrecendo os planos de Deus para ela
- Ela subjuga os outros e vive de alimentar seu ego (Ninrode)
- E, por fim, cria a sua própria forma de espiritualidade; traçando um caminho a Deus
 
AS IMPLICAÇÕES HOJE
 
1. O nosso projeto de vida sempre deve estar de acordo com o projeto divino para nós. Deus tem um plano para sua vida, um propósito para você! Já dizia o antigo hino "Deus Tem Um Plano" (Victorino Silva):
 
Deus tem um plano em cada criatura
Aos astros Ele dá o céu
A cada rio, Ele dá um leito
E um caminho para mim traçou.


A minha vida, eu entrego a Ti
Pois o Seu Filho a entregou por mim,
Não me importa onde for, seguirei meu Senhor.
Sobre terra ou mar, onde Deus mandar, irei.
Em Seu querer encontro paz na vida
E bênçãos que jamais gozei
Embora venham lutar e tristezas
Tenho fé que Deus me guiará.


A minha vida, eu entrego, entrego a Deus
Pois o Seu Filho, lá na cruz, a entregou por mim
Não me importa aonde for, seguirei meu Senhor
Sobre terra ou mar, onde Deus mandar, irei.


2. O muito falar produz palavras néscias, isto é, tolas (Ec 5.3). Muitos pensam que por falarem muito estão sendo necessariamente ouvidos. Porém nem em nosso diálogo com Deus é assim. Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, assim é melhor ouvir do que falar; é sábio responder somente depois de ouvir o nosso interlocutor (Pv 18.13). Cuidado com o que diz, porque havemos de dar contas no dia do juízo até de nossas frívolas (levianas, fúteis) palavras (Mt 12.36)! Nossa língua pode ser inflamada pelo inferno sem que percebamos! Assim, aquele que fala, fale segundo os oráculos de Deus (I Pe 4.11), fale apenas palavras que sejam boas para edificação, para transmitirem graça aos que a ouvirem (Ef 4.29).
 
 
Referências:
 
1. COMENTÁRIO BÍBLICO DO ANTIGO TESTAMENTO,  VOL 1 - Gênesis a Neemias. Matthew Henry.